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Tecnologia reduz tempo no transporte de órgãos para transplante

Aluno da Unicamp desenvolveu software de planejamento de transporte de órgãos para transplante

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09h00 - 16/12/2019

Atualizado há 6 meses

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Um software de planejamento de transporte de órgãos para transplante, desenvolvido na Unicamp, já está disponível para a CET (Central de Transplantes) do Estado de São Paulo.

O sistema EOS (a deusa Aurora da mitologia grega) foi desenvolvido pelo estudante Henrique Bellotti, em sua tese de mestrado que teve orientação da professora Maria Teresa Françoso na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC). Contou ainda com o apoio de Adriano Balista, da empresa Ativvus, e do cirurgião Ronaldo Honorato, do Instituto do Coração (InCor) da USP, considerado o maior especialista em transplantes de coração do país na atualidade.

O criador do programa explica que o EOS permite elaborar o planejamento logístico para transporte de equipes médicas e órgãos humanos entre doadores e receptores, considerando o tempo de isquemia (tempo disponível entre a interrupção da circulação sanguínea do órgão até a sua reperfusão),  as legislações pertinentes e variáveis como o melhor modal – veículo terrestre, helicóptero, aviões comerciais, táxi aéreo, aeronave da FAB – para completar a missão. “Na verdade, o software se resume a uma equação matemática que resolve vários conflitos de recursos para transporte entre os hospitais do doador e do receptor.

Adriano Balista, da empresa Ativvus, Henrique Bellotti e professora Maria Teresa Françoso, da Unicamp/Divulgação Unicamp

Segundo o mestrando em engenharia civil, hoje todo este plano logístico é feito manualmente, por um grupo de cinco enfermeiras do Núcleo de Transplantes do InCor, utilizando recursos disponíveis gratuitamente na internet como Waze, Google Maps e Decolar.com. “Esta análise pode durar mais de uma hora, até se chegar à melhor solução possível para cada tipo de órgão. O coração e o pulmão, por exemplo, são os que têm menor tempo de isquemia – 4 e 6 horas, respectivamente. Fizemos as nossas simulações com esses dois órgãos justamente para desenvolver a arquitetura do software baseados nos casos mais difíceis.”

Bellotti esclarece que depois de uma revisão bibliográfica nacional, focou sua pesquisa no estado de São Paulo para ter um contexto mais controlado e de fácil acesso. A Central de Transplante fica dentro da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Outro esclarecimento é que existe uma sequência para retirada dos órgãos do doador, nesta ordem: coração, pulmão, fígado, rim, pâncreas e depois os outros tecidos, como córneas, ossos e pele. “No caso específico do coração e do pulmão, é preciso ter constatada a morte encefálica do doador. Estes dois órgãos só podem ser transplantados nessas condições, não sendo aproveitados, por exemplo, no caso de pessoa que teve morte instantânea em acidente. Nossos exercícios para validação do software foram com coração e pulmão, pois o tempo de isquemia é menor. Se o sistema funciona nestes casos, vai funcionar para os demais órgãos”.

De acordo com Henrique Bellotti, no software são inseridos dados como tipo de órgão, equipe médica para o procedimento de retirada, data e hora da captação, endereços dos hospitais onde se encontram o doador e o receptor. Como resultado, o sistema fornece a distância, modal mais indicado para o transporte, tempo de deslocamento total e o tempo de isquemia. “Quanto menos tempo despendido no transporte, maior a taxa de sucesso da cirurgia de transplante. Se a coleta está dentro de um raio de 100 quilômetros, é descartado o transporte aéreo e priorizado o terrestre, com eventual uso do helicóptero Águia da Polícia Militar. Acima desse raio, o sistema apresenta um planejamento logístico multimodal, como a indicação de voos comerciais, com complemento por via terrestre e outras opções. Existem acordos com as companhias aéreas, que cedem lugares para a equipe médica, enquanto o órgão vai dentro da cabine de pilotos.”

Uma ressalva apontada pelo autor da pesquisa é que data e hora da captação não são muito flexíveis em função dos trâmites funerários e velório. “Se a captação do órgão se estender por mais tempo, é necessário elaborar um novo plano de operação. Se a opção de modal for um voo comercial, a aeronave não pode esperar o órgão para decolar, diferente de aviões da FAB ou táxi aéreo. De qualquer forma, o sistema permite mudar o planejamento, selecionando até mesmo a empresa de táxi aéreo e indicando o aeródromo de partida. A Central Estadual e as enfermeiras do Núcleo de Transplantes vão informar e coordenar todas as equipes que atuam no processo de captação até que o procedimento de transplante seja totalmente concluído.”

Evolução do projeto

A professora Maria Teresa Françoso, orientadora da dissertação de mestrado, lembra que o projeto de seu aluno evoluiu bastante desde que foi idealizado. “Minha linha de pesquisa é sobre geoprocessamento. Inicialmente, Henrique Bellotti queria trabalhar com drones, até fazer um curso de logística humanitária. Neste momento surgiu a ideia de desenvolver um sistema para transporte de órgãos, o que não existe, já que esse planejamento é feito manualmente. Para acelerar o desenvolvimento, pediu a ajuda do amigo Adriano Balista, que possui conhecimentos técnicos em programação e desenvolvimento de softwares.”

Balista, por sua vez, conta que uma primeira versão serviu apenas para testar a sistemática por trás do software, com muitas consultas de localização no Google Maps e também na plataforma da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) buscando informações sobre voos e aeródromos (comprimento de pista, se era ou não pavimentada, o que faz diferença para aviões fretados). “Montamos tudo isso, a princípio, para aplicação em desktop, partindo depois para a parte mobile, visando dar acesso à plataforma para todos os envolvidos no sistema de captação de órgãos.

Conforme o especialista da empresa Ativvus, foram simulados no EOS 18 casos reais de transportes de órgãos executados pela Central de Transplantes no decorrer de um ano, chegando-se próximo a 90% de acertos em comparação com o que havia sido planejado manualmente. “Agora vamos começar a fazer pilotagens em ocorrências verdadeiras, trabalhando junto a dois ou três médicos, para os últimos ajustes do aplicativo. Feito isso, podemos liberar o acesso para todos que trabalham em operações de captação.”

Processo sigiloso

Henrique Bellotti aponta um aspecto importante do processo que é de ser totalmente impessoal, em que os envolvidos nas organizações de procura e captação de órgãos não mantêm contato entre si, evitando-se possíveis fraudes dentro do sistema. “Nenhum campo de dados do software indica nomes do doador ou do receptor, simplesmente registramos as informações que dizem respeito ao processo logístico. Além disso, o aplicativo permite criar perfis de acesso para os diferentes usuários. Por exemplo, além da equipe médica na missão de captação, temos a ambulância e a equipe intra-hospitalar à espera do órgão e que pode inclusive passar tranquilidade à família do receptor.”

O engenheiro manteve muitos contatos com Francisco Jones Souza Paiva, diretor da Central Estatual de Transplantes, que indicou como fonte o cirurgião Ronaldo Honorato, do InCor e de quem recebeu muitas informações valiosas. “O doutor Honorato conhece muito este processo, tendo na mente cases de sucesso e outros que deram errado; exploramos muito suas entrevistas até chegarmos à arquitetura que ele entende como o mínimo requerido para executarmos os planos logísticos.

O sistema logístico de transporte desenvolvido na FEC, afirma Bellotti, tem a aprovação e o apoio para disseminação da Central de Transplantes e do Núcleo de Transplantes do Incor. “Conversei com as enfermeiras do núcleo durante alguns dias para calibrar o sistema que íamos entregar. É uma ferramenta que alivia bastante a carga de trabalho delas, que chegam a fazer dois ou três planejamentos simultaneamente e ainda precisam se preocupar com os exames médicos do receptor – a probabilidade de um erro diminui consideravelmente. Outro problema que se resolve é o de registro de dados de cada plano logístico, que agora podem ficar armazenados nesse sistema”.

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