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Unicamp: Estudo aponta que coronavírus pode infectar neurônios humanos

O próximo passo é saber como o funcionamento das células nervosas é alterado pela infecção

Agência Fapesp, Band Mais

08h21 - 01/05/2020

Atualizado há 1 mês

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Pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) confirmaram, por meio de experimentos feitos com cultura de células, que o coronavírus (SARS-CoV-2), causador da doença covid-19, é capaz de infectar neurônios humanos.

A infecção e o aumento da carga viral nas células nervosas foram confirmados pela técnica de PCR em tempo real, a mesma usada no diagnóstico da doença em laboratórios de referência. O grupo coordenado pelo professor do Instituto de Biologia Daniel Martins de Souza também confirmou que os neurônios expressam a proteína ACE-2 (enzima conversora de angiotensina 2, na sigla em inglês), molécula à qual o vírus se conecta para invadir as células humanas.

O próximo passo é investigar como o funcionamento das células nervosas é alterado pela infecção. O estudo está sendo conduzido no âmbito de um projeto aprovado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), como parte de uma força-tarefa criada pela Unicamp.

“Vamos comparar as proteínas e demais metabólitos presentes nas culturas celulares antes e após a infecção. A ideia é observar como o padrão das moléculas muda e, com base nessa informação, tentar contar a história de como o vírus atua no sistema nervoso central”, disse Martins-de-Souza à  Agência Fapesp.

Efeitos no cérebro

Segundo o professor Daniel Martins de Souza, estudos feitos em outros países sugerem que o novo coronavírus tem tropismo pelo sistema nervoso central, ou seja, uma certa propensão a infectar as células nervosas.

“Mas ainda não sabemos se o vírus realmente consegue atravessar a barreira hematoencefálica [estrutura que protege o cérebro de substâncias tóxicas e patógenos presentes na circulação sanguínea] e, caso consiga, que tipo de impacto pode causar no tecido nervoso. Tentaremos buscar pistas que ajudem a elucidar essas dúvidas”, diz o pesquisador.

Os experimentos in vitro com isolados virais estão sendo feitos no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) do Instituto de Biologia da Unicamp, que tem nível 3 de biossegurança (em uma escala que vai até 4) e é coordenado pelo pesquisador José Luiz Proença Módena.

Participam dos testes os pós-graduandos Gabriela Fabiano de Souza e Stéfanie Primon Muraro, orientandas de Módena, e Ana Campos Codo e Gustavo Gastão Davanzo, sob a orientação do professor Pedro Moraes Vieira.

Os testes de metabolômica e proteômica serão conduzidos no Laboratório de Neuroproteômica, coordenado por Martins deSouza, pelos pós-doutorandos Victor Corasolla Carregari e Pedro Henrique Vendramini. Para isso, será usado um espectrômetro de massas, equipamento capaz de discriminar diferentes substâncias presentes em uma solução com base no peso molecular de cada uma.

“Além de investigar se a quantidade de uma determinada proteína na amostra aumenta ou diminui após a infecção, também pretendemos avaliar como está o nível de fosforilação e de glicosilação das moléculas. Esses dois mecanismos bioquímicos são usados pela célula para ativar ou desativar rapidamente a função desempenhada pelas proteínas. Isso nos dará pistas sobre as vias metabólicas que são alteradas nos neurônios em resposta ao novo coronavírus”, conta Martins deSouza.

Manifestações neurológicas

Em um um vídeo divulgado pelo site da Unicamp, o neurologista Li Min comenta as manifestações neurológicas já observadas em pacientes com covid-19, entre elas perda de olfato e paladar, confusão mental, derrame e dor muscular (sem relação com alguma lesão no músculo).

“Em um terço dos pacientes diagnosticados com covid-19, nós podemos ter também manifestações neurológicas. Em um estudo já relatado na China mostra que até 30% das pessoas infectadas podem apresentar essas manifestações neurológicas”, salienta o médico no vídeo.

Min é coordenador de Educação e Difusão do Conhecimento do Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fapesp.

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